quinta-feira, 20 de maio de 2010

Autarquia pra quê?

E da Grécia Antiga advém o conceito de autarquia, que significa não precisar ter auxílio de outros homens ou de quaisquer outras entidades exteriores. Esparta era exemplo disso.
Pra um espartano a perfeição era próxima desse conceito: o homem livre era aquele que dominava suas políticas e guerras. Bastava-se.

Trazendo tal premissa pro mundo moderno, vejo que não mudou muito: a massa pensante das grandes metrópoles – da qual faço parte, inclusive - engrossa o cordão dos que acreditam que para ser é preciso bastar-se.
Sim: de fato é… mas… até que ponto a gente não tá levando tudo isso muito ao pé da letra? Até que ponto não desfocamos o conceito e, consequentemente, não criamos mais um monstro moderno?
Segundo o Aurélio, bastar significa ser suficiente.
Pois bem.

Tendo em vista que o que é suficiente pra mim não é para o outro, posso pressupor que o ‘bastar-se’ de cada um é pessoal e intrasferível. Right?
Venho pensando há meses nos conceitos de solidão e autosuficiência e no quanto todas estas questões me incomodam.
E hoje me dei conta de que me incomodam justamente porque eu to tentando ‘bastar’ um buraco num molde que não é o meu.
Tomando o ponto de que como parte da ‘massa pensante’, eu não aceitaria jamais ficar aquém do coletivo, me cobro dia e noite por não saber lidar com a idéia de solidão.
“Se todo mundo consegue, porque é que eu não”?

Simples: todo mundo não sou eu. Ponto.

Acho mesmo é que ‘bastar-se’, assim como tudo na vida, deve ser dosado. E que o mundo moderno fez o favor de deturpar a idéia original.

Um autista, por exemplo, não só sabe lidar com a idéia de solidão, como também a prefere. Caso bastar-se a este nível não fosse nocivo, não precisaríamos mais de estudos na área e o indivíduo acometido pela doença, seria caracterizado como são.
Eu não gosto da solidão. Acho sacal.
O mundo é bem mais divertido quando se pode compartilhá-lo.
Dores, amores, alegrias, tristezas, conceitos, pessoas. Compartilhar é tudo de bom! O coletivo é nosso constituinte!

O mundo moderno nos cobra, a todo momento, dois conceitos: individualidade e autosuficiência. Não tê-los é sinônimo de fracasso. E nisso, concordo em gênero, número e grau: sem estes quesitos, não estamos aptos a fazer escolhas. E num mundo de consumo quase que imediato em todos os campos – sobremaneira, no das idéias – quem não pode escolher, tá na roça: leva o que lhe dão.

Entretanto, tenho revisto conceitos tortos e descoberto que não sou obrigada a gostar da solidão. E que isso nada tem a ver com o fato de ser ou não autosuficiente e tampouco com ter ou não individualidade. Abusadamente, ouso dizer que contestar esse desvio, por si, já caracteriza bravamente minha individualidade.

Sendo assim: caguei pros moldes. #ponto-parágrafo.

E se o mundo assim nos exige um caráter espartano, alerto que nasci ateniense: sinônimo de homem livre, pra mim, é aquele que pensa –filosofa– e questiona –usa de retórica.

E como oratória pressupõe ouvintes: preciso de gente.