quarta-feira, 25 de abril de 2018

Ideias trôpegas.


"Eu te murmuro.
Eu te suspiro.
Eu, que soletro teu nome no escuro...

... me escutas, Cecília?"

Ela sofria.
Sofria de sofreguidão.
Ela não ouvia nem a si mesma: sua confusão de ideias trôpegas não permitiam.

Naquele momento, naqueles dias de mágoa enferma, era difícil conseguir se concentrar em qualquer coisa que não fosse sobreviver.

... "mas eu te chamava em silêncio...
Na tua presença, palavras são brutas"...

Ela vivia, naqueles dias, o grande desafio de anestesiar os ouvidos perante o mundo.
Não importava quem: tudo doía, até mesmo o silêncio.
"Uma taça caída", arte surrealista de Marcel Caram.

Um par de olhos a contemplava e ela não conseguia fazer nada a respeito daquele olhar. Sobretudo daquele olhar que, embora não fosse propositadamente, exigia dela a atenção que não conseguia dar a si.

"Pode ser que, entreabertos, meus lábios, de leve, tremessem por ti."

Ela, absorta, retribuía sem corpo presente: ela não estava.
Nem mesmo nela.

"Eu, que não digo, mas ardo de desejo"...

Ela o percebia, mas não conseguia em época de temporal na Alma.

"Te olho."

Ela o via, mas não conseguia.

"Te guardo.
Te sigo.
Te vejo dormir."

Ela, por noites seguidas, sentia a presença daquele olhar sentado à cabeceira da cama, ou recostado a ela, numa fome que ardia, mas ela não conseguia acordar.
Era como num transe de remédios.


Acontece que ela gostava dele.
E não estar ali era dolorido também nela.

Ele vinha naquele olhar que buscava um entendimento corpo a corpo, numa chuva daquele par de mãos tão decididos a persuadí-la, num suspiro na nuca que...

... cedeu.

No desenrolar dos dias, mesmo ainda fora de si, cedeu.

Braços, bocas, pernas, peso do corpo.
Movimentos sempre tão naturais e  compassados: havia especial simetria entre eles.

O olhar dele sorria, aliviado: não havia outra pessoa. Era ele ainda, então. Ele temeu que já não fosse.

Beijos, abraços, conversas, risadas.

A noite caía.
Ela, ainda sem roupa, desfilava pela casa.


De repente, ele a mediu.

- Das coisas mais lindas, você... nua.

Ela rubrou.

- E sem estar nua também.

Ela sorriu.

E só conseguiu pensar que a Vida deveria gravar na memória aquele tipo de momento, tão doce.
E foi fato que, por sua vez, a Vida, muito rápida, leu os pensamentos dela e...

... gravou.