domingo, 22 de fevereiro de 2015

O Sucesso não sai correndo.

Bem suceder-se. Definição sem forma fechada.

Eu falava sobre isso com a minha Mãe hoje.
E me deparei há minutos com esse selo aê.

E me ocorreu dizer que não vem sendo muito fácil administrar, no mundo moderno, as próprias expectativas sobre si.
Não vem sendo muito fácil de maneira geral, sem sexismo.

Eu me sinto cobrada.
O tempo inteiro.

Por mais que os anos de terapia me façam dispersar dessa espécie de mutilação coletiva difusa, lá no fundo, bem quase escondida, fica aquela sensação de que falta buscar alguma coisa.

O quê?

Ninguém sabe.
Nunca vi, nem comi: eu só ouço falar.

Eu não falo de buscar nada além dos limites daquilo que sou eu, ou seja, em alguém, mas falo sim da maneira como nos vemos no que tangencia aquilo que requer nosso esforço.

As conquistas sociais, digamos assim. Não só o lado prático capitalista selvagem, mas nosso comprometimento com aquilo a que a gente se propõe e o quanto andar fora desta linha, nem que seja por minutos, horas, dias, me traz aquela péssima sensação de que deixei parte do que deveria fazer pra trás.

E de repente, me vi hoje mexendo em fotos, recordações, besteiras lidas por aí afora, nesse mundão que é a Internet, rindo um monte de tudo o que via e ouvia, mas... com a cabeça num raciocínio frenético de que tava aqui perdendo um tempo danado.

Roupas pra lavar, livros pra ler, casa pra arrumar, coisas pra estudar, material de artesanato me esperando, documentos a serem procurados, mala com roupa de 'evento' tendo de estar pronta até sexta, há que viajo de novo depois de ter voltado de um Carnaval há 4 dias. Ou seja: em 10 dias, idas e vindas. E não estou em férias.

E o fantasma chamado 'você não fez' subido no meu ombro. Feito uma matraca, fazendo um barulho danado, me lembrando de que... eu não posso viver. Não posso porque preciso viver.

Oi?

Eu não posso ficar fazendo 'nada' agora, porque preciso preparar terreno seguro pra não fazer 'nada' amanhã.

Oi?

Quer dizer: num mesmo dia, eu olhava o passado com carinho, num presente sossegado, me cobrando de maneira frenética por um futuro.

Oi?

É. É isso mesmo: num mesmo dia, vivi tudo com a sensação de não ter vivido nada.
E por quê?
Porque a gente passa uma vida se dando afazeres, sem pensar que o 'se bastar' de cada um é singular.
Não adianta eu aplicar na minha própria vida um molde que não é meu.
Ok. Na teoria é lindo, mas...

... e o fantasma no ombro que berra?

Porque... a bem da verdade, aos 34⅔: não vivi pouca coisa.

Morei, ao longo da vida, em cinco cidades diferentes. Até aqui.
Fiz nove mudanças de casa. Até aqui.
Trabalhei em seis lugares diferentes. Até aqui.
Fiz uma universidade pública que me confere quatro diplomas.
Todo o meu FGTS foi parar na entrada de um imóvel. Aos 21 anos.
Pretendo trocar de carro nos próximos seis meses. Aprendi a dirigir só aos 28.
Falo enferrujadamente fluente uma segunda língua e arrastro em outras três.
Tô a um passo de acabar um MBA com bolsa de estudos do conglomerado pro qual trabalho.
Tenho convênio e previdência privada.
Moro sozinha, dando conta de tudo o quê é preciso pra que alguém se garanta vivo com decência.
Já casei. Já me divorciei. Já vivi outras histórias.
Conheci Paris, Florença e Salvador: lugares que sempre quis conhecer. Desde os 17.
Fora todas as outras cidades e caminhos que vi, ouvi, comi, bebi, li e vivi.
Fiz amigos que deixei pela estrada. Com carinho, a grande maioria.
Fiz Amigos pra uma vida inteira.
Fiz Amigos Família.

E falando em Família: também trago eles comigo: me compõem.

E tudo isso, levando-se em consideração algumas bifurcações ao longo do trajeto, que algumas vezes me fizeram ter de voltar, outras me trouxeram atalhos, mas... não foi propriamente uma reta só. Minha história não percorreu uma estrada chapada: teve muito relevo pra chegar até aqui.

Mas o barato é louco...

Na última madrugada fui dormir às 5h da manhã, procurando uma provável linha de pesquisa de um pretenso mestrado ainda não decidido aqui dentro.
Tenho analisado meu currículo funcional, fazendo cursos específicos que me levem a pontuá-lo de maneira objetiva, com vistas numa possível ascensão profissional.
E dessa pontuação também depende a tentativa de bolsa pro inglês que quero fazer.
E o mestrado tá diretamente vinculado ao prazo de término da bolsa atual: a ideia é seguir os próximos passos que me são passíveis de patrocínio ali mesmo.

E tudo isso dependerá... DO MEU ESFORÇO PESSOAL.
O meu esforço pra chegar lá.

Quédizzê: acabei de achar a casa do fantasma.

Maravilha! Agora... O que é esse 'preparar terreno'? O que é o tal do 'chegar lá'?
Ou seja: se a 'expectativa', de certo modo, é me proporcionar uma 'base' pra 'um dia quem sabe': já to no caminho.
E sendo assim: eu posso sim ter mais tantas outras experiências na vida, mas... NÃO PRECISO me cobrar por elas.
Ninguém aqui tá dizendo que 'minha vida acabou e já tenho tudo de que preciso'.
Não.
Eu to dizendo que, num raciocínio um pouco mais lógico e um tanto menos tirano: esse fantasma precisa descer do ombro e ser exorcizado. Porque ele não me ajuda em nada, além de meter o tridente na minha bunda, me chamando quase que de 'incompetente'.

Qual é Carolina? Porque que tu me tô nessa?

Nexo zero. Ze-ro.

Dissesse que tenho urgência de mais tantas outras coisas... até me entenderia, mas... não tenho.
Tranquilo demorar um tempo pra trocar de carro.
Tranquilo conhecer outros lugares ao longo da vida.
Tranquilo programar coisas a longo prazo.
Tranquilo.

Demorando pra entender que Ansiedade, A Maldita, não ajuda em nada.
E que Culpa, A Tirana, não cabe numa vida com engrenagens funcionando.
E que Recompensa, O Objetivo, já tem cota por aqui.

Não é preciso correr atrás de nada: basta ir.
Os objetivos são estáticos.

Já plantei a árvore.
Já escrevi -da maneira mais inesperada- o livro.
E só não fiz o tal filho porque ainda não tenho certeza se quero.

E se quer saber, Carolina: só de me te contar tudo isso, cansei.
E cansei tanto, que vou ali tomar banho pra dormir.
E continuar não fazendo 'nada' por mais algum tempo.

Desacelerar pode ser a chave do Sucesso.

Só por hoje.